Vocês já contrataram um seguro em cinco minutos, direto do celular, no sofá de casa? Hoje é assim: o app do banco sugere o seguro do carro, a seguradora digital promete apólice na hora e a fintech da conta conjunta oferece desconto para o casal. Rápido, bonito e sem papel. O que quase ninguém faz é parar nas perguntas que aparecem no meio do caminho.
E é justamente ali que mora o risco. Aquelas telinhas com “quem dirige o carro?”, “onde ele dorme à noite?” ou “alguém mais mora no imóvel?” não são detalhe de cadastro. Pelas regras atuais, o questionário de avaliação de risco vale como parte do contrato. Uma resposta errada, mesmo sem má-fé, pode virar o motivo de uma indenização negada lá na frente.
Para casal, a armadilha é dupla. Um preenche sozinho, no pique, e responde pelo outro. Só que o carro é usado pelos dois, a casa mudou de configuração, a rotina de trabalho mudou. Quem preencheu e quem usa o seguro precisam estar falando da mesma vida.
Neste guia, vocês vão ver o que mudou na lei de seguros, quais perguntas mais derrubam indenizações, como revisar juntos as apólices que já têm e o que fazer se a seguradora recusar o pagamento.
Proposta de seguro, aviso de renovação e até falso “corretor” chegam cada vez mais pelo chat. Vejam como esses apps de conversa mexem com a proteção do casal:
A Lei 15.040, a nova lei de contratos de seguro, entrou em vigor no fim de 2025 e mexeu em pontos que afetam diretamente quem contrata pelo app. O primeiro: o questionário de risco ganhou força contratual. A seguradora só pode alegar que vocês omitiram uma informação se tiver perguntado sobre ela. Em compensação, se perguntou e a resposta foi falsa ou incompleta, o direito à cobertura pode ser perdido.
Outros pontos ajudam o consumidor. O contrato precisa mostrar de forma clara e destacada o que está incluído e o que está excluído. Em caso de dúvida sobre a cobertura, a interpretação deve favorecer o segurado. A seguradora tem prazo de 25 dias para recusar uma proposta e, se ficar em silêncio, a proposta é considerada aceita. Depois de comunicado o sinistro com os documentos, são 30 dias para reconhecer ou negar e mais 30 para pagar, com multa e correção se atrasar.
Também ficou proibido o cancelamento unilateral pela seguradora e a carência na renovação ou na troca de seguradora. Ou seja: trocar de empresa para pagar menos não pode significar voltar à estaca zero.
Não existe lista oficial, mas corretores e órgãos de defesa do consumidor repetem os mesmos casos. Vejam se algum deles mora na casa de vocês:
| Pergunta do questionário | Resposta que parece inofensiva | Risco para o casal |
|---|---|---|
| Quem é o condutor principal? | Colocar quem deixa o seguro mais barato | Sinistro questionado se o outro dirige mais |
| Onde o carro dorme à noite? | Garagem, mesmo depois da mudança | Roubo na rua sem cobertura garantida |
| O veículo é usado para trabalho? | Não, mesmo rodando para aplicativo | Indenização negada por uso diferente |
| Quantas pessoas moram no imóvel? | Número antigo, antes de morarem juntos | Dados desatualizados na apólice da casa |
| Há equipamentos de trabalho em casa? | Não, mesmo com home office montado | Notebook e monitor fora do valor segurado |
Repararam que nenhuma dessas respostas é “mentira cabeluda”? São coisas que mudam com a rotina do casal: um passa a dirigir mais, outro começa a trabalhar em casa, o carro passa a dormir na rua depois da mudança. O seguro foi desenhado para a vida que vocês declararam, não para a vida que vocês vivem hoje.
No seguro auto, a pergunta “quem é o condutor principal?” mexe muito no preço. É tentador colocar quem paga menos, geralmente a pessoa mais velha ou com mais tempo de habilitação. Só que, se quem dirige de verdade no dia a dia é o outro, a seguradora pode questionar o sinistro. Seguradoras como Allianz, Mapfre, Azul Seguros e HDI deixam claro nas condições gerais que informação incorreta sobre o perfil pode levar à perda do direito à indenização.
No seguro residencial, o erro comum é não atualizar a apólice depois de uma mudança, de uma reforma ou da chegada de um home office com equipamentos caros. O seguro compreensivo, que inclui o residencial, foi um dos que mais cresceram no último balanço da SUSEP, a autarquia que fiscaliza as seguradoras. Mais gente protegendo a casa, e mais gente com apólice desatualizada.
Contratar pelo celular não é o problema. O Sicoob acabou de lançar um seguro auto 100% digital, feito com Allianz e outra grande seguradora, para simular e contratar pelo próprio app. A Pier e a fintech de conta conjunta Noh fecharam parceria com desconto para casais em seguro de carro e de celular. Nubank, Itaú, Bradesco Seguros, BB Seguros e Youse também vendem apólices na palma da mão. A conveniência é real; o cuidado é que precisa acompanhar.
Antes de tocar em “contratar”, façam juntos este checklist rápido:
Um detalhe que pesa no bolso: muitos apps já trazem as respostas preenchidas com base no cadastro antigo. Não aceitem resposta pronta. Se vocês se casaram, mudaram de endereço ou trocaram de carro, o cadastro do banco pode estar contando outra história.
A lei também obriga o segurado a informar o agravamento do risco. Mudar o carro de garagem para a rua, começar a usar o veículo para aplicativo de transporte ou deixar a casa vazia por longos períodos são exemplos. Depois do aviso, a seguradora tem até 20 dias para ajustar o contrato.
Pode parecer que avisar só vai encarecer o seguro. Às vezes encarece, sim. Mas a conta é simples: pagar um pouco mais agora é muito melhor do que descobrir, no pior dia, que a indenização não vem. E às vezes a mudança até baixa o preço, como quando o carro passa a dormir em garagem fechada.
Combinem uma regra de casal: toda mudança grande, como casa nova, carro novo, filho, pet, trabalho em casa ou viagem longa, entra numa lista de “avisar o seguro”. Cinco minutos de ligação ou de chat oficial evitam meses de briga com o atendimento.
Primeiro, peçam a negativa por escrito, com o motivo e a cláusula usada. Pela regra atual, se o texto do contrato for ambíguo, a interpretação deve favorecer vocês. Juntem o questionário que responderam, a proposta e as conversas com a seguradora.
Depois, sigam a ordem: SAC da seguradora, ouvidoria e, se não resolver, reclamação no consumidor.gov.br, onde a empresa cadastrada tem prazo para responder. O Procon e a SUSEP também recebem reclamações. Quem guarda os documentos negocia de outro jeito.
Se vocês contrataram por um banco ou fintech, lembrem que quem paga o sinistro é a seguradora parceira, não o app. Por isso o nome dela precisa estar claro desde a contratação.
E antes de chegar a esse ponto, vale olhar com calma os outros guias de seguros do casal, que tratam de crédito no chat, golpes e proteção do celular.
Faltam dois apps no guia: Snapchat e Instagram. Abra o hub completo do casal:
Seguro bom não é o mais barato da tela; é o que paga quando vocês precisam. E isso começa nas respostas, não no sinistro. Separem uma noite por ano para abrir juntos as apólices do carro, da casa, do celular e de vida, conferir se as respostas ainda batem com a rotina e ajustar o que mudou.
Façam isso de mãos dadas com a planilha do orçamento: o seguro certo protege o patrimônio que vocês estão construindo a dois. Para tirar dúvidas e registrar reclamações, o canal oficial é o consumidor.gov.br.